
O cálcio é um mineral essencial no organismo, envolvido em funções críticas como contração muscular, transmissão nervosa, coagulação sanguínea e saúde óssea, mas isso você já sabe, né? No entanto, no sangue, ele circula sob diferentes formas, com diferentes importâncias clínicas. Muitas vezes, os exames tradicionais medem o cálcio total (ou sérico total), mas o cálcio iônico (ou ionizado) é a fração fisiologicamente ativa. Entender as diferenças entre esses dois ajuda profissionais de saúde a interpretar melhor os resultados e decidir a conduta correta.
No plasma/soro sanguíneo, o cálcio total se divide em três principais frações:
| Fração | % aproximado do cálcio total | Características principais |
|---|---|---|
| Cálcio ligado a proteínas (albumina, globulinas) | ~ 35-40% | Não está livre para atuar; depende da concentração de proteínas séricas. |
| Cálcio ionizado (livre) | ~ 50% | Fisiologicamente ativo; é essa fração que participa das reações celulares, contração muscular, transmissão de impulso nervoso etc. |
| Cálcio complexo (ligado a ânions como fosfato, bicarbonato, lactato etc.) | ~ 10-15% | Parcialmente disponível dependendo das condições químicas do plasma. |
Fatores que afetam o cálcio total e o cálcio iônico
- pH sanguíneo
O pH influencia a quantidade de cálcio ligado à albumina. Quando o pH diminui (acidose), há mais cálcio livre, pois há menos ligação às proteínas. Em alcalose, o efeito inverso. - Albumina sérica
A albumina “carrega” uma parte do cálcio total. Quando a albumina está baixa (hipoalbuminemia), o cálcio total pode parecer baixo, mesmo que o cálcio ionizado esteja normal. Por isso, existe a necessidade de correção do cálcio total conforme os níveis de albumina. - Proteínas totais / outros ligantes
Alterações nos níveis de outras proteínas ou substâncias que se ligam ao cálcio também podem mudar a fração ligada, sem necessariamente alterar o cálcio livre.
Métodos de dosagem
- Cálcio total (sérico/plasmático): normalmente por métodos colorimétricos, plataformas automatizadas. É o exame mais comum, incluso na rotina de bioquímica hospitalar.
- Cálcio iônico: idealmente medido por eletrodos íon-seletivos (comumente aferido através de gasometrias) — esse método detecta diretamente a fração livre do cálcio no sangue.
Se eu tiver a dosagem somente do cálcio sérico, eu consigo ter alguma noção da quantidade de cálcio iônico? E sim, dá pra calcular isso!
Quando o cálcio iônico não pode ser medido diretamente, pode-se usar uma fórmula para ajustar o cálcio total levando em conta a albumina:
Cálcio corrigido = cálcio total (mg/dL) + (0,8 × (4,0 − albumina do paciente em g/dL))
Mas atenção: isto é estimativa, e não substitui a dosagem direta de cálcio iônico quando for disponível.
Interpretação correta dos níveis de cálcio é essencial porque:
- Diagnósticos incorretos podem levar a tratamentos desnecessários ou perigosos.
- Situações de hipocalcemia ou hipercalcemia não reconhecidas comportam riscos cardíacos, neuromusculares e de coagulação.
- Em pacientes com albumina baixa ou distúrbios do pH, confiar apenas no cálcio total pode dar falsa sensação de normalidade ou de problema quando não há.
O cálcio iônico é a forma biologicamente ativa, mais diretamente relacionada às funções corporais. O cálcio total continua útil como exame inicial ou de triagem, mas seus resultados devem ser interpretados com cuidado, especialmente em contextos de alterações de albumina sérica ou pH. Sempre que possível, utilize a dosagem direta de cálcio iônico para decisões clínicas críticas.
REFERENCIAS:
1. Leung A. A., Desgagnés N., Seiden-Long I., et al. “Use of Albumin-Adjusted Calcium Measurements in Clinical Practice.” JAMA Network Open, 2025. DOI:10.1001/jamanetworkopen.2024.55251
2. Morishita M., Maruyama Y., Nakao M., et al. “Factors affecting the relationship between ionized and corrected calcium levels in peritoneal dialysis patients: a retrospective cross-sectional study.” BMC Nephrology, 2020;21:370. DOI:10.1186/s12882-020-02033-y
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